quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Gaiola de compaixão


Desde que construiu o seu próprio mundo que sempre teve a companhia do seu lindo pássaro azul.
Ao início não sabia bem como lidar com ele, porém colocou-o numa gaiola, pois tinha medo que ele fugisse. Era uma dona muito dedicada, tratava-o como se ele fosse o seu mundo. Afeiçoou-se a ele. Chorava tantas vezes frente a ele, ria ao vê-lo, sentia-se feliz ao ouvi-lo, mesmo quando o seu chilrear a acordava durante a noite.
Todavia um dia ele deixou de chilrar para ela, ela alimentava-o e ele quase não comia, falava para ele e ele mostrava-se desinteressado.
Este acontecimento fê-la reflectir, fê-la ver como se tinha revelado egoísta ao mantê-lo preso dentro da gaiola. Deste modo, concluiu que o melhor era devolver-lhe a liberdade.
Abriu a porta da gaiola e ele manteve-se estático, então ela pegou nele, abriu a janela e poisou-o à frente dela. Ele sem hesitar voou, não para a rua, mas de volta para a sua gaiola.
Apesar de não compreender a atitude dele não o forçou, mas deixou a janela aberta com esperança que ele partisse.
Passaram meses e ele mantinha-se lá e a janela permanecia aberta, apesar de já ter terminado o Verão e estar a chover.
Preocupada, levantou-se da cama, erguendo junto a ela a culpa, correu para a sala e viu-o a olhar para a janela. E não querendo mais ser culpada da infelicidade dele pegou-lhe e disse-lhe que a partida dele não seria somente benéfica para ele, pois ela adorava-o e o bem dele era o bem dela. Podia chorar a sua ausência, mas iria sentir-se bem mais leve ao saber que ele ia ter a vida que ele próprio escolheria.
Ambos deixaram cair uma lágrima e o passarinho voou pelo céu fora.

domingo, 22 de agosto de 2010

O brilho da dor


Foi invadida por algo e não sabendo do que se tratava sentiu-se reprimida e começou a soltar inúmeras lágrimas que logo se cristalizaram, impedindo o invasor de se expandir dentro de si.
Tornou-se forte mesmo não o sendo, defendeu-se mesmo não estando numa guerra.
E após consolidar as suas ideias, as lágrimas transformaram-se num bonito material orgânico duro e esférico. Assim, dentro de uma concha disforme, nasceu o mais belo e doce brilho formado pela dor.
Agora apenas deseja desnudar-se para dar o seu fulgor ao mundo e ser digna de olhares e elogios.
Porém esta não seria uma realidade se o invasor não tivesse entrado na sua vida, por isso ela agradece todos os dias o facto de ele a ter magoado, pois essa mágoa deu outro rumo à sua existência, convertendo-se na sua oportunidade de brilhar.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Balão sem ar


Inspirei bem fundo, pois já me ardia o peito de expelir tanto ar.
Mas o que é um ardor no peito quando comparado com uma dor de alma? Absolutamente nada – exactamente o mesmo que me restava, pois até o meu pequeno balão encarnado estava agora sem ar.
E eu precisava de mais e mais ar para encher a maior quantidade possível de balões e mesmo não o tendo, tinha que continuar.
Após terminar, peguei no rolo de guita, cortei vários bocados e atei todos os balões, aprisionando-os, tal como um dia fizeste comigo.
De seguida, amarrei o aglomerado de balões aos meus braços e deixei de sentir o chão. Estava finalmente a partir para outro lugar, para o desconhecido. Sentia as nuvens da incompreensão e os raios da desilusão. Todavia já nada me afectava, porque estavas longe e mesmo estando a perder os balões sabia que não ia voltar, porque afinal de contas tudo tem um princípio e um fim.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

(H)era amor


Sentei-me uma vez mais de frente para ti e lá estavas tu com teu tom verde radioso e sempre a trepar, tornando-te cada vez maior.
Sabia que não eras um ser humano, que não ouvias o que te dizia e muito menos me podias responder. Contudo falar para ti acalmava-me, fazias-me sentir compreendida e acompanhada. E naquele dia falei até a voz me doer. Queria chorar, mas não podia, pois tinha prometido que não voltaria a fazê-lo ao pé de ti. Então fechei os olhos durante vários minutos e ao reabri-los vi que estavas coberta de gotas de água. Olhei para o céu e este mantinha-se limpo, olhei para mim e eu permanecia seca. Então o que seria aquilo?
E no meio dos meus pensamentos confusos ouvi uma voz.
- Eu choro por ti, porque quem ama sofre e torna o impossível em realidade.
E nesse momento percebi que afinal era amor – o sentimento que nos transforma.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Flutua comigo


Eram já três da manhã, o corpo dele estava tenso, afundava-se a cada instante, era necessária uma pessoa munida de alguma robustez para o auxiliar, mas só estava lá ela, que pouco devia à força. Contudo, sempre fora uma combatente e não iria certamente deixá-lo desaparecer. Atirou-se à água e tentou puxá-lo, porém algo anómalo estava a acontecer, ele ao invés de se deixar salvar tentava afogar-se.
Após infindáveis tentativas de salvamento, o corpo dela ficou à tona, deixando o jovem estático. E, subitamente, começaram a esvoaçar camélias por cima deles, acabando por assentar sobre o corpo dela, fazendo-a despertar. Ele surpreendido pediu-lhe perdão e ela apenas disse: - De hoje em diante não remes mais contra a maré, flutua comigo.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

O céu da vida

Espero pelo silêncio que me acalma, não pelas palavras que me enganam…
É duro o presente, é melancólico o passado e é um mistério o futuro. Por conseguinte, irei seguir o agora, abandonar o depois e resguardar o que tenho, mantendo-me fiel a mim mesma.
Sei que são dores o que a tua ausência me causa, porém a tua presença nem sempre sei o que provoca. E assim é o céu da vida que, por vezes, nos brinda com uma esplendorosa luz, mas outras apenas nos deixa as suas lágrimas e o seu pesar. E debaixo do céu nublado começo agora a criar as minhas próprias luzes que provêm do coração que está pronto para todas as tempestades, mas nunca sem as tuas palavras de amor.
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...