domingo, 15 de maio de 2011

É só mais uma dança, vens?



O sucesso estava garantido, a plateia preenchida e o júri de bom humor.
Amélia estava pronta, acabara de vestir o seu vestido preto, o único que tinha.
O seu parceiro estava sorridente e transpirava confiança, porém o corpo de Amélia começara a atraiçoá-la, as suas mãos tremiam e a sua mente tentava impedi-la de avançar. Mas porque sabia que não podia desistir, seguiu em frente.
Subiu ao palco, colocou-se em posição e, após uma longa contagem decrescente, a música começou a soar. O seu coração batia tão depressa que o som das suas batidas se sobrepôs à música, criando uma agitada melodia que a embalou, levando-a a falhar e, por conseguinte, a desistir, saindo do palco a correr.
Contudo, o seu par, mesmo só e envergonhado, continuou a dançar.
Ao terminar dirigiu-se até ela e disse-lhe: - Não faças isto agora, já provaste a ti mesma que és capaz. É só mais uma dança, vens?
- Não!
- Se não fazes isto por ti, fá-lo ao menos por mim. Não me deixes só!
Amélia não ditou nem mais uma palavra, ele voltou para o palco e ela ficou sentada a um canto, arrependida por abandonar quem nunca a abandonou.
Uma hora depois, encontraram-se à saída e ele nem cruzou o olhar com o dela, partiu sem ela poder sequer despedir-se.
Amélia ficou ainda mais incapacitada que antes, estava possuída pela fúria, desejando nunca ter tido direito à vida. Sentia-se desiludida, pois não foi capaz de se libertar da sua mente e perdeu mais do que uma oportunidade de brilhar, perdeu a pouca cor que restava na sua vida.
Sentia que espiritualmente morreu em frente àquele palco que não conseguiu enfrentar, não por não querer, mas por simplesmente não conseguir. Porquê? A razão nem ela conhece, apenas sabe que há muito tempo que a sua mente guia a sua vida e há muito tempo, também, que perdera tudo.

sábado, 7 de maio de 2011

Amigos da sabedoria

Fotografia daqui

Abrira o jornal à procura de uma notícia reconfortante, mas saltou-lhe à vista uma informação dispensável. Não queria saber da existência deles, muito menos dos seus planos fúteis. O caminho que escolhera para si era exactamente o antagónico ao deles.
Fechou o jornal, apagou o cigarro e foi-se embora.
Sentia-se incontrolavelmente perturbado.
Vagueava pelo centro da cidade tentando esquecer a cada passo que dava uma frase daquela notícia. Foi então que tropeçou numa caixa desfeita e por mais estranho que parecesse aquela caixa assemelhava-se a uma que tivera, mas que acabara por deitar fora, deitando junto a ela o seu outro eu.
Pegou na caixa, retirou-lhe a tampa e o seu interior estava vazio. Todavia a mente dele estava agora sobrecarregada de memórias. Sentou-se um pouco e viajou no tempo por instantes. Viu-se rodeado de pessoas em imoderadas diversões. Naquelas visões ele era retratado tal e qual os outros. Pareciam-se com robots, desprovidos de livre arbítrio. De seguida, viu-se na actualidade, já não era igual aos outros, era singular, e nas mãos carregava um conjunto de livros empilhados.
Abriu os olhos e voltou a ver a calçada pela qual caminhava e seguiu para casa.
Ao chegar, pegou num papel e num lápis escreveu um pequeno texto e auto-retratou-se. Na ilustração estava com algumas feições bastante destacadas, como numa caricatura. Estava rodeado de livros, mas nada mais o circundava, estava solitário.
Por fim, como título da notícia escrevera apenas Amigos da Sabedoria. E após esta longa caminhada, encontrou a tão procurada notícia reconfortante – estava só, mas feliz por se ter tornado diferente.

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