Abrira o jornal à procura de uma notícia reconfortante, mas saltou-lhe à vista uma informação dispensável. Não queria saber da existência deles, muito menos dos seus planos fúteis. O caminho que escolhera para si era exactamente o antagónico ao deles.
Fechou o jornal, apagou o cigarro e foi-se embora.
Sentia-se incontrolavelmente perturbado.
Vagueava pelo centro da cidade tentando esquecer a cada passo que dava uma frase daquela notícia. Foi então que tropeçou numa caixa desfeita e por mais estranho que parecesse aquela caixa assemelhava-se a uma que tivera, mas que acabara por deitar fora, deitando junto a ela o seu outro eu.
Pegou na caixa, retirou-lhe a tampa e o seu interior estava vazio. Todavia a mente dele estava agora sobrecarregada de memórias. Sentou-se um pouco e viajou no tempo por instantes. Viu-se rodeado de pessoas em imoderadas diversões. Naquelas visões ele era retratado tal e qual os outros. Pareciam-se com robots, desprovidos de livre arbítrio. De seguida, viu-se na actualidade, já não era igual aos outros, era singular, e nas mãos carregava um conjunto de livros empilhados.
Abriu os olhos e voltou a ver a calçada pela qual caminhava e seguiu para casa.
Ao chegar, pegou num papel e num lápis escreveu um pequeno texto e auto-retratou-se. Na ilustração estava com algumas feições bastante destacadas, como numa caricatura. Estava rodeado de livros, mas nada mais o circundava, estava solitário.
Por fim, como título da notícia escrevera apenas Amigos da Sabedoria. E após esta longa caminhada, encontrou a tão procurada notícia reconfortante – estava só, mas feliz por se ter tornado diferente.
sábado, 7 de maio de 2011
Amigos da sabedoria
terça-feira, 15 de fevereiro de 2011
Pétalas de mim

Nisto começa a correr, dirigindo-se para o prado, esquecendo-se que era apenas uma menina de 8 anos e que o escuro da noite a assombrava.
Corre entusiasmada pelo prado fora, onde outrora correra sorridente e voara de braço dado com o seu pai.
- Papá? – chama Madalena, desejando apenas voltar ouvir a voz dele e poder abraçá-lo. Porém, ouve apenas os mochos que sempre a arrepiaram, mas que agora não mais a intimidam.
Pouco depois, avista ao longe a casa de madeira, no topo da árvore e corre ainda mais depressa. Sente-se ofegante, mas a sede de rever o seu progenitor é maior que qualquer cansaço, é simplesmente infinita.
Bate à porta, pedindo licença para entrar. Contudo, não ouve ninguém e pensa que talvez o papá esteja a dormir, pois já é tarde. Então, roda cuidadosamente a maçaneta, para não fazer barulho e com pezinhos de veludo entra, olhando em redor e encontra apenas a cruel realidade, a ausência do pai.
Grita em desespero, grita até a voz desaparecer.
Perde as suas pequenas forças e acaba por cair, completamente transtornada e alagada em lágrimas.
- Papá foste embora e não me levaste, mas eu também quero ir. Volta, eu espero aqui por ti – murmura Madalena. E de seguida, adormece enrolada numas velhas mantas que antes utilizara nos piqueniques dos Domingos, nos quais comia as deliciosas sandes que o pai fazia. Era o dia da semana em que era a princesa mais feliz do Universo, como ela própria dizia.
Na manhã seguinte, acordou assustada, pensava que tudo aquilo podia ter sido um sonho mau e que o papá iria estar ali para lhe dar um beijo e a acalmar, mas não.
Desembrulhou-se e ao largar as mantas reparou que delas caiu um pequeno ramo de flores silvestres, iguais às que o seu pai lhe oferecia quando a coroava como mais bela princesa do seu reino.
- O papá esteve aqui! O papá esteve aqui! Ele veio buscar-me! – diz eufórica.
Abre a porta, desce as escadas e começa a dançar e cantar pelo verdejante terreno. Depois ergue o ramo e uma rajada de vento solta as pétalas das flores e a menina solta junto delas doces palavras.
- Papá, estas pétalas são um bocadinho de mim e vão voar até ti, porque eu só sei ser feliz contigo.
domingo, 30 de janeiro de 2011
Receita do Coração
Ema é uma jovem de 25 anos, tem olhos cor de mel e cabelos longos e ondulados cor de cacau. É uma rapariga discreta e sonhadora que sempre adorou fazer bolos, por vezes, fazia tantos que acabava por partilhá-los com os vizinhos.
Um dia, após o trabalho, Ema corre para a cozinha, sente-se cansada, mas lá no seu mundo, sente-se finalmente tranquila. As paredes estão pintadas de um terno rosa claro, as bancadas brancas estão impecavelmente limpas, sem dúvida ali a paz reina.
Entrançou o cabelo e pôs o avental que a sua mãe lhe dera à meses quando ela decidira viver sozinha. Depois, abriu uma das portinholas do armário, retirou açúcar, farinha, ovos e mais alguns ingredientes. E colocou-os espontaneamente numa tigela sem se preocupar com quantidades, seguindo somente a receita do coração. Por fim, misturou tudo, pôs numa forma e levou para o forno.
Enquanto esperava pôs uma toalha rendilhada sobre a mesa e preparou-se para se deliciar.
Ouviu o forno desligar, retirou o bolo e desenformou-o. Chegara a hora da fantasia. Ema foi até ao seu pequeno jardim imaginário e colheu diversas flores, todas elas de doces aromas. Depois foi só soprar as nuvens que pairavam sobre o seu jardim e logo depois as bonitas flores poisaram sobre elas. Finalmente, o bolo estava pronto.
Sentou-se à mesa, serviu-se e começou a saborear, porém os lugares em seu redor permaneciam desocupados. Foi então que soou a campainha. Ema esboçou um pequeno sorriso e ao abrir a porta ficou maravilhada ao ver um enorme ramo de flores pousado cuidadosamente à porta. Pegou-lhe e leu o cartão que nelas se encontrava, que tinha apenas inscrito: A realidade pode ser tão doce quanto a fantasia.
terça-feira, 18 de janeiro de 2011
Não te escondas!

Por favor, não deixes que entrem em ti, que comandem a tua vida e que a levem, como se de nada se tratasse. Esquece as cruéis palavras e afasta-te desses seres a quem chamam pessoas.
Sei que sentes fortemente esta dor que te rodeia sempre que estás só.
Sei que não conheces o mundo e muito menos as pessoas, sendo essa ingenuidade que te fragiliza.
Olho para ti, continuas cabisbaixo a jogar, mais um daqueles passatempos que te faz esquecer a realidade. Isso faz-me pensar em como uma simples brincadeira de criança começa assim a deixar as primeiras cicatrizes, a vincar o teu perfil e a apagar a tua luz.
Sinto-me inútil, sinto que as palavras são em vão, que os meus braços já não te protegem e que os meus beijos não saram feridas.
sábado, 11 de dezembro de 2010
Aprazível viagem
Só aos poucos me apercebo que trazes no regaço doces frutos vermelhos suportados por toda uma natureza que és tu. Envolves-me num aroma e brindas-me com deliciosos momentos. Esqueço-me que estou longe de casa, perdida numa causa que não é minha e deixo que adoces mais um amargo momento. E assim, transformas um sofredor trajecto numa aprazível viagem.
E agora que estou de novo no meu quarto, prestes a seguir por um atalho, olho para o lado e lá estás tu. Continuas com o teu meigo sorriso e lembras-me que mesmo sem nada nos podemos sentir afortunados.
Para a Fábrica de Letras
quarta-feira, 24 de novembro de 2010
Equilíbrio

Entro e chamo por ti, mas nada rompe o gélido silêncio que paira no ar.
Dirijo-me para o quarto e não ligo as luzes, opto simplesmente por acender as velas.
Aos poucos o ar transforma-se uma miscelânea de fragrâncias e eu desejo ansiosamente que um desses aromas seja o teu. Surpreendentemente, todos eles me levam até ti. Talvez porque estás, cada vez mais, marcadamente em mim.
Deito-me e adormeço envolta em memórias, que me relembram os dias em que me deste todo o teu equilíbrio, arriscando cair.
Na leviandade dos sonhos, tenho a percepção de que são actos heróicos, o que fazes por mim.
E momentos depois, o sono é inesperadamente interrompido com o soar da campainha que me acorda abruptamente. Corro para a porta, abro-a e ali estás tu com o teu sorriso meigo, pronto para uma vez mais me harmonizar.
Abraço-te e sinto que nunca me vais deixar cair, assim como eu jamais deixarei de te amar.
sexta-feira, 8 de outubro de 2010
Adaptação natural

Ao chegar, sento-me vendo o vento soprar, arrastando as velhas folhas que agora se encontram fracas e quebradiças, e eu acabo por desejar que uma forte rajada de vento me levasse os tristes pensamentos.
Vejo como a natureza se adequada às mudanças, como tudo parece naturalmente fácil.
Porque é que o Homem não se adapta espontaneamente às diferentes circunstâncias? – Pergunto-me em voz alta. E nesse instante um senhor de pele da cor da terra, marcadamente rugosa aparece ao meu lado e diz: O Homem é um ser livre e cada ser humano é único, por isso deve viver tudo por si mesmo, deve deixar que os outros o julguem e que dos seus erros retirem ensinamentos.
Estas palavras voaram até mim, assentaram sobre a minha mente e geraram desordem. A dúvida tomava agora o lugar da questionação e ao começar a falar, a voz dele sobrepôs-se à minha e uma misteriosa frase soou uma vez mais:
Podes ver cores de Outono, mas no teu peito batem as cores da vida, não as deixes esmorecer, vive e realça-as.
E acabadas estas palavras o senhor desapareceu, esfumou-se num ápice e eu levantei-me pronta para seguir um novo caminho.


