quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Equilíbrio


Ao longe avisto a minha casa, apresso-me a procurar as chaves e em instantes já me encontro a abrir a porta.
Entro e chamo por ti, mas nada rompe o gélido silêncio que paira no ar.
Dirijo-me para o quarto e não ligo as luzes, opto simplesmente por acender as velas.
Aos poucos o ar transforma-se uma miscelânea de fragrâncias e eu desejo ansiosamente que um desses aromas seja o teu. Surpreendentemente, todos eles me levam até ti. Talvez porque estás, cada vez mais, marcadamente em mim.
Deito-me e adormeço envolta em memórias, que me relembram os dias em que me deste todo o teu equilíbrio, arriscando cair.
Na leviandade dos sonhos, tenho a percepção de que são actos heróicos, o que fazes por mim.
E momentos depois, o sono é inesperadamente interrompido com o soar da campainha que me acorda abruptamente. Corro para a porta, abro-a e ali estás tu com o teu sorriso meigo, pronto para uma vez mais me harmonizar.
Abraço-te e sinto que nunca me vais deixar cair, assim como eu jamais deixarei de te amar.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Adaptação natural


Os castanhos invadem a paisagem, chegou a hora de me sentar naquele banco de jardim e pensar no porquê da vida nem sempre ter cor.
Ao chegar, sento-me vendo o vento soprar, arrastando as velhas folhas que agora se encontram fracas e quebradiças, e eu acabo por desejar que uma forte rajada de vento me levasse os tristes pensamentos.
Vejo como a natureza se adequada às mudanças, como tudo parece naturalmente fácil.
Porque é que o Homem não se adapta espontaneamente às diferentes circunstâncias? – Pergunto-me em voz alta. E nesse instante um senhor de pele da cor da terra, marcadamente rugosa aparece ao meu lado e diz: O Homem é um ser livre e cada ser humano é único, por isso deve viver tudo por si mesmo, deve deixar que os outros o julguem e que dos seus erros retirem ensinamentos.
Estas palavras voaram até mim, assentaram sobre a minha mente e geraram desordem. A dúvida tomava agora o lugar da questionação e ao começar a falar, a voz dele sobrepôs-se à minha e uma misteriosa frase soou uma vez mais:
Podes ver cores de Outono, mas no teu peito batem as cores da vida, não as deixes esmorecer, vive e realça-as.
E acabadas estas palavras o senhor desapareceu, esfumou-se num ápice e eu levantei-me pronta para seguir um novo caminho.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Talvez pudesse


Talvez pudesse ter super-poderes, ser perfeita, agarrar em espinhos e transformá-los em rosas.
No entanto, nunca serei brindada com esses dons e hoje as minhas mãos estão cortadas e repletas de sangue, pois eu sou apenas uma fraca.
Devia levantar a voz e gritar loucamente "Até nunca!", mas não sou capaz, por mais que o deseje.
Não sei aguentar, não sei disfarçar, quero desaparecer e a minha história apagar.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Berço da fantasia


Cantas-me mais uma canção de embalar e fazes-me sonhar acordada.
Envolves-me em nuvens de tons doces e suaves que me fazem sentir adormecida. Fico atordoada com tanta perfeição e perco-me na ilusão.
Adormeço no berço da fantasia que juntos construímos ao partilharmos o céu, ao brincarmos nas nuvens e ao sentir o seu delicado toque.
Porém inexplicavelmente paraste de cantar, de me acarinhar, de me fazer voar.
E assim, o berço desfez-se e os meus olhos vêem agora o que antes não viam.
Deixaste-me cair, roubaste-me o meu ninho e deste-me apenas a desilusão.
Tenho as mãos cheias de nada, estou inteiramente vazia, pois tu apagaste a minha vontade de sonhar.
E sem forças para continuar faço-te um último pedido:
- Por favor volta a cantar para mim, prenda-me com a tua doçura e embala-me eternamente.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Grãozinhos de coragem


Fui amontoando os grãozinhos de coragem que encontrei aqui e ali, que germinaram do sonho. Pensava possuir a atmosfera. A atmosfera que eras tu, contudo enganei-me.
Tentei libertar, libertar-me. Fi-lo, mas tu impiedosamente tiraste-me o oxigénio. Caí desprotegida, fiquei sem respirar! Acreditava nas nuvens que me iriam amparar, mas essas desfizeram-se à minha frente triste e lentamente. A causa foste tu e ainda a és. A pergunta que me persegue é ainda “Porquê?”, da qual desconheço a resposta. Resposta que até tu desconheces.
A tua acção veio como um marco dos teus desejos, do teu sonho. Sonho que me impuseste, sonho que nunca fora meu. O meu perdera-o à muito quando o teu olhar sinistro e a tua voz pavorosa o rejeitaram.
Não sei quem conseguirei perdoar. Serei capaz de te perdoar e de me perdoar?
Os teus erros aceitá-los-ei um dia, mas os meus jamais!
Os grãozinhos de coragem flutuam no ar, talvez um dia vá em sua busca, no dia em que reconstruir as asas que tu tão friamente me tiras-te.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Gaiola de compaixão


Desde que construiu o seu próprio mundo que sempre teve a companhia do seu lindo pássaro azul.
Ao início não sabia bem como lidar com ele, porém colocou-o numa gaiola, pois tinha medo que ele fugisse. Era uma dona muito dedicada, tratava-o como se ele fosse o seu mundo. Afeiçoou-se a ele. Chorava tantas vezes frente a ele, ria ao vê-lo, sentia-se feliz ao ouvi-lo, mesmo quando o seu chilrear a acordava durante a noite.
Todavia um dia ele deixou de chilrar para ela, ela alimentava-o e ele quase não comia, falava para ele e ele mostrava-se desinteressado.
Este acontecimento fê-la reflectir, fê-la ver como se tinha revelado egoísta ao mantê-lo preso dentro da gaiola. Deste modo, concluiu que o melhor era devolver-lhe a liberdade.
Abriu a porta da gaiola e ele manteve-se estático, então ela pegou nele, abriu a janela e poisou-o à frente dela. Ele sem hesitar voou, não para a rua, mas de volta para a sua gaiola.
Apesar de não compreender a atitude dele não o forçou, mas deixou a janela aberta com esperança que ele partisse.
Passaram meses e ele mantinha-se lá e a janela permanecia aberta, apesar de já ter terminado o Verão e estar a chover.
Preocupada, levantou-se da cama, erguendo junto a ela a culpa, correu para a sala e viu-o a olhar para a janela. E não querendo mais ser culpada da infelicidade dele pegou-lhe e disse-lhe que a partida dele não seria somente benéfica para ele, pois ela adorava-o e o bem dele era o bem dela. Podia chorar a sua ausência, mas iria sentir-se bem mais leve ao saber que ele ia ter a vida que ele próprio escolheria.
Ambos deixaram cair uma lágrima e o passarinho voou pelo céu fora.

domingo, 22 de agosto de 2010

O brilho da dor


Foi invadida por algo e não sabendo do que se tratava sentiu-se reprimida e começou a soltar inúmeras lágrimas que logo se cristalizaram, impedindo o invasor de se expandir dentro de si.
Tornou-se forte mesmo não o sendo, defendeu-se mesmo não estando numa guerra.
E após consolidar as suas ideias, as lágrimas transformaram-se num bonito material orgânico duro e esférico. Assim, dentro de uma concha disforme, nasceu o mais belo e doce brilho formado pela dor.
Agora apenas deseja desnudar-se para dar o seu fulgor ao mundo e ser digna de olhares e elogios.
Porém esta não seria uma realidade se o invasor não tivesse entrado na sua vida, por isso ela agradece todos os dias o facto de ele a ter magoado, pois essa mágoa deu outro rumo à sua existência, convertendo-se na sua oportunidade de brilhar.
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